Abuso sexual em um anime




Já faz um bom tempo que a indústria do desenho animado tem se ampliado, mostrando-nos que esse produto da cultura de massas não é mais, necessariamente, "coisa para criança", e, no caso dos animes, os desenhos japoneses, sabemos que mesmo os que são juvenis não são tão inocentes, sempre despertando discussões por serem considerados violentos ou ter personagens de sexualidade ambígua, visto que  um traço comum dos desenhos japoneses é a presença de figuras andróginas,
 como pudemos ver em Cavaleiros do Zodíaco, Yu Yu Hakusho, Sailor Moon e outros que não chegaram a ser tão famosos. O Japão, aliás, tem uma lucrativa indústria de animes eróticos, incluindo os yaoi e yuri, que desenvolvem, respectivamente, tramas de conteúdo gay e lésbico. Entre os da primeira categoria, um anime que não é recomendável a pessoas sensíveis é Okane ga Nai, baseado no mangá de mesmo nome.
A trama é um tanto sórdida e pesada, não tanto por falar sobre homossexualismo masculino, mas por causa da maneira como o relacionamento dos personagens principais, Ayase Yukiya e Kanou Somuku, é construída e também porque está ambientada no submundo da yakuza, a máfia japonesa, abordando temas como tráfico sexual, estupro e síndrome de Estocolmo, no qual a vítima de contínuos abusos, mesmo sofrendo muito, não consegue deixar de se sentir ligada ao seu abusador.
A trama é assim: Ayase Yukiya, inocente estudante de 18 anos, foi traído por seu primo, que tinha dívidas com a máfia, leiloado  para ser escravo sexual e é comprado, por uma impressionante quantia de 120 milhões, por Kanou Somuku, um agiota inescrupuloso e desumano, por motivos que só Kanou sabe: quatro anos atrás, Kanou estava ferido, caído e sozinho numa rua em noite chuvosa e Ayase, compadecido, ajudou-o. Desde então, Kanou sonhava reencontrá-lo e decidiu comprá-lo para salvá-lo de terrível destino, pois se apaixonou perdidamente pelo menino estranho que o salvou. Porém, quando Ayase acorda, não lembra de Kanou que, enraivecido e ofendido, estupra-o e depois diz que pagará 500.000,00 por cada sessão de sexo, prendendo o jovem a si. Embora depois Kanou se arrependa e tente se emendar, tendo gestos de ternura para com Ayase,  isso não muda sua forma abusiva de agir, pois ele sempre obriga o jovem a satisfazê-lo quando quer ter relações sexuais.
A construção dos personagens é um tanto estereotipada: Kanou, sendo o seme( parceiro ativo), é alto, forte, masculino, com voz grave e Ayase, o uke (passivo) é pequeno, frágil, louro, olhos azuis, voz fina e traços femininos, chorando com facilidade e sendo dado a ter febres. As personalidades de ambos também são díspares: Kanou, sendo um agiota ligado à yakuza, aprendeu a não confiar em ninguém para sobreviver e elimina impiedosamente seus inimigos e Ayase é ingênuo e compassivo, o que encanta Kanou que, tocado por sua fragilidade, faz coisas como cuidar dele em suas febres e consolá-lo quando chora de decepção ao se descobrir traído pelo primo. Entretanto, Kanou sempre se vale de sua posição dominante e superioridade física para submeter Ayase a seus acessos de luxúria, além de ser extremamente possessivo, agredindo quem se aproxime do jovem.
Ayase é talvez o personagem mais complexo da trama pois, embora seja continuamente abusado, ainda assim é capaz de sentir afeto por seu estuprador, defendendo-o e dizendo que ele é gentil para com ele, o que nos faz desconfiar que seja vítima de síndrome de Estocolmo. Em alguns momentos, o menino chora, sentindo-se sujo por se ver forçado a fazer sexo por dinheiro , mas mesmo assim ele não consegue detestar seu algoz, sentindo-se em dívida com os momentos em que Kanou o trata com bondade. Pelo que podemos ver, o jovem, que já está emocionalmente vulnerável, encontra-se doentiamente ligado ao homem que mudou sua vida de cabeça para baixo.
Portanto, podemos ver que Okane ga nai não é um romance, mas uma história de abuso, onde a vítima acaba por se ligar ao seu carrasco por não ser capaz de viver sem ele.

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